Introdução
A Amazônia brasileira desempenha papel crucial no clima global e na conservação da biodiversidade, mas enfrenta altas taxas de desmatamento impulsionado pela pecuária (Loomis; Puppim De Oliveira, 2024). Nesse contexto, sistemas digitais de rastreabilidade surgem como ferramentas centrais para monitorar cadeias de fornecimento e reforçar compromissos de sustentabilidade (Butollo; Schneidemesser, 2022; Mann; Iazzolino, 2021). A crescente digitalização cria novos arranjos de governança, em que empresas de software passam a atuar como intermediários no controle do acesso a mercados.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Apesar do avanço tecnológico, persistem falhas na inclusão de fornecedores indiretos e tensões entre exigências internacionais (como a EUDR) e padrões nacionais. O problema central é compreender se a rastreabilidade digital gera transformação sustentável ou apenas conformidade performática . O objetivo do estudo é analisar como plataformas de monitoramento estruturam fluxos de dados, moldam práticas de governança e impactam atores na cadeia da carne bovina amazônica.
Fundamentação Teórica
Apesar do avanço tecnológico, persistem falhas na inclusão de fornecedores indiretos e tensões entre exigências internacionais (como a EUDR) e padrões nacionais. O problema central é compreender se a rastreabilidade digital gera transformação sustentável ou apenas conformidade performática . O objetivo do estudo é analisar como plataformas de monitoramento estruturam fluxos de dados, moldam práticas de governança e impactam atores na cadeia da carne bovina amazônica.
Metodologia
O estudo adota abordagem qualitativa, com dois estudos de caso de empresas de software que oferecem plataformas de rastreabilidade a frigoríficos na Amazônia. Foram conduzidas 27 entrevistas com produtores, intermediários, gestores de frigoríficos, órgãos públicos e organizações civis em Santarém, Oriximiná, Marabá e Belém. A análise temática considerou transparência, governança e exclusão. Também foi realizada pesquisa documental e revisão de auditorias de TAC/CPP, triangulando dados primários e secundários.
Análise e Discussão dos Resultados
Os resultados mostram que as plataformas variam entre soluções automatizadas, voltadas a grandes clientes, e sistemas modulares adaptados ao nível regional. Ambas integram bases públicas (CAR, GTA, PRODES, listas de embargo), mas diferem em transparência e acessibilidade. Enquanto um modelo privilegia eficiência e escala, o outro oferece mais rastreabilidade documental. Contudo, ambos carecem de mecanismos de apelação para produtores. O estudo evidencia tensões entre eficácia regulatória e equidade social na governança digital.
Considerações Finais
A rastreabilidade digital é essencial para alinhar a pecuária amazônica a mercados internacionais, mas pode reproduzir exclusões estruturais. Para que se torne um instrumento de transformação, é necessário ampliar transparência, criar canais de contestação e incluir pequenos produtores. O estudo reforça que intermediários digitais são atores centrais na reconfiguração da governança da cadeia bovina e que políticas públicas devem dialogar com essas infraestruturas para garantir justiça e sustentabilidade.
Referências
BUTOLLO, Florian; SCHNEIDEMESSER, Lea. Who runs the show in digitalized manufacturing? Data, digital platforms and the restructuring of global value chains. Global Networks, v. 22, n. 4, p. 595–614, out. 2022.
EMEL, Jody; NEO, Harvey (ORGS.). Political ecologies of meat. London?; New York: Routledge, Taylor & Francis Group, 2015.
KRISHNAN, Aarti; DE MARCHI, Valentina; PONTE, Stefano. Environmental Upgrading and Downgrading in Global Value Chains: A Framework for Analysis. Economic Geography, v. 99, n. 1, p. 25–50, 1 jan. 2023.