Introdução
O ESG (Environmental, Social and Governance) consolidou-se como linguagem técnica dominante da sustentabilidade corporativa, sendo incorporado a relatórios e certificações em escala global. Entretanto, sua efetividade tem sido alvo de críticas crescentes, sobretudo no agronegócio brasileiro, onde práticas de rastreabilidade e discursos de sustentabilidade muitas vezes funcionam mais como exigências reputacionais do que como compromissos éticos ou transformações substantivas, configurando greenwashing estrutural.
Problema de Pesquisa e Objetivo
O problema central investigado consiste em compreender como o ESG opera na cadeia da carne bovina brasileira: se como mecanismo neutro de avaliação da sustentabilidade ou como dispositivo simbólico de poder que organiza disputas de legitimidade. O objetivo geral é analisar criticamente os fundamentos, usos e efeitos do ESG, revelando suas contradições internas e identificando as formas de simulação institucional, exclusão tecnológica e apagamento epistêmico presentes em sua adoção prática.
Fundamentação Teórica
A análise articula quatro teorias organizacionais clássicas: Agência, Stakeholders, Institucional e Legitimidade, com categorias críticas emergentes, como justiça epistêmica, exclusão tecnológica, democracia informacional e colonialidade da sustentabilidade. Essa abordagem multiteórica amplia a compreensão do ESG como gramática simbólica, permitindo problematizar sua neutralidade técnica e revelar como ele funciona como artefato performativo que naturaliza regimes de poder, legitima discursos e invisibiliza práticas locais de sustentabilidade.
Metodologia
O estudo adota uma abordagem qualitativa crítica, de caráter interpretativo, ancorada em triangulação metodológica. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com pecuaristas, sindicatos, técnicos do INDEA , SENAR e representantes do Ministério da Agricultura; análise documental de relatórios corporativos de grandes frigoríficos e materiais institucionais; além de questionários aplicados a 123 consumidores urbanos. O recorte empírico concentrou-se no Sudoeste de Mato Grosso, região estratégica da pecuária de corte, marcada por tensões ambientais e pressões reputacionais.
Análise e Discussão dos Resultados
A investigação empírica identificou cinco eixos críticos: (i) ritual ESG e simulação institucional, em que práticas padronizadas são mais simbólicas que efetivas; (ii) dissonância entre narrativa e prática, revelada pela distância entre relatórios e operações; (iii) exclusão tecnológica, que marginaliza pequenos produtores sem acesso a plataformas digitais; (iv) epistemicídio, com invisibilização de saberes locais; e (v) disputa simbólica por legitimidade. Tais achados evidenciam o ESG como blindagem reputacional mais eficaz na construção de imagens do que na indução de transformações efetivas
Considerações Finais
Os resultados confirmam que o ESG funciona como dispositivo simbólico performativo, marcado por contradições estruturais e por sua funcionalidade reputacional. Como contribuição teórica, o artigo propõe uma crítica ontológica ao ESG, desnaturalizando suas racionalidades neoliberais e questionando sua pretensa neutralidade. No campo prático, aponta a necessidade de desenvolver modelos avaliativos inclusivos, empíricos e contextualizados, capazes de distinguir práticas autênticas de sustentabilidade de simulações institucionais e de valorizar saberes locais invisibilizados.
Referências
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