Introdução
A Economia Circular é apresentada como resposta sistêmica aos wicked problems, articulando estratégias nos níveis micro (indivíduo), meso (empresas) e macro (governo) (GEISSDOERFER et al., 2017). A realidade da população atual, estimada para 9,7 bilhões para 2050 (UN, 2024), reforça esse desafio, visto que na União Europeia (UE) a taxa de materiais circulares atingiu apenas 11,8% em 2023, um aumento de apenas 1,1% em relação a 2010 (EUCO, 2025). Sendo a UE referência em implantação de EC, esses números sugerem que o modelo linear pode atingir seu limite em breve.
Problema de Pesquisa e Objetivo
A presente pesquisa visa responder ao seguinte questionamento: de que modo os aspectos das variáveis culturais (individualismo, aversão à incerteza e indulgência) ao nível nacional, combinados com a percepção acerca das mudanças climáticas ao nível individual, influenciam a adoção de práticas de economia circular entre os cidadãos da UE? Para tanto, adota-se uma abordagem quantitativa multinível em 26 países da UE, com o objetivo de examinar os efeitos dessas variáveis na adoção das práticas de EC.
Fundamentação Teórica
A efetividade da Economia circular depende dos indivíduos: práticas de reciclagem, reparo e consumo sustentáveis, sendo o cidadão um ator central na circularidade (GEISSDOERFER et al., 2017). Esse protagonismo, entretanto, nem sempre é considerado em agendas, o que pode tornar a EC um novo wicked problem. A transição para a economia circular não pode ser compreendida sem considerar o papel da cultura na formação de atitudes e comportamentos pró-ambientais. Hofstede e Hofstede (2010) fornecem um referencial útil para compreender essas diferenças.
Metodologia
A presente pesquisa caracteriza-se como descritiva, de abordagem quantitativa baseada em dados secundários, abrangendo 26 países com 26.165 respondentes. As fontes utilizadas possuem amplo reconhecimento internacional, sendo elas: 1) Eurobarometer 95.1 (2021); 2) Valores de Hofstede (2010); e 3) World Bank (2022). Para analisar os dados, considerando a estrutura hierárquica, utilizou-se a técnica estatística de regressão linear multinível (RLM) com intercepto aleatório por meio do software SPSS. Adotou-se a padronização por escore Z e a aplicação dos estimadores de máxima verossimilhança.
Análise e Discussão dos Resultados
O intercepto médio foi significativo (p <0,05). O coeficiente de correlação intraclasse (ICC) indicou que 13,58% da variabilidade das práticas pode ser atribuída às diferenças entre países. A percepção sobre mudanças climáticas, foi o preditor mais forte positivamente (0,28). A Aversão à Incerteza (-0,12) apresentou associação negativa, já Indulgência (0,11) e Individualismo (0,16) apresentaram efeitos positivos. As políticas podem redefinir resíduos e empresas gerarem novos modelos circulares, mas, sem a inclusão efetiva dos cidadãos e consumidores, dificilmente serão bem-sucedidas.
Considerações Finais
Esses achados reforçam que a EC não pode ser limitada a um entendimento apenas técnico ou político, mas sim como um fenômeno moldado por fatores culturais e sociais que pode favorecer ou limitar sua efetividade. Assim, a análise sugere que a EC figura simultaneamente como uma resposta promissora aos wicked problems relacionados às mudanças climáticas, poluição e gestão de resíduos, contudo emergindo também como um novo wicked problem, cuja implementação não englobou os múltiplos atores, necessitando revisão e adaptações contínuas.
Referências
EUROPEAN COUNCIL. Explainers. The circular economy explained. 2025. Disponível em: https://www.consilium.europa.eu/en/policies/the-circular-economy-explained/.
GEISSDOERFER, Martin et al. The Circular Economy – A new sustainability paradigm? Journal of cleaner production, v. 143, p. 757–768, 2017.
HOFSTEDE, Geert; HOFSTEDE, Gert Jan. Cultures and organizations: Software for the mind, third edition. 3. ed. Montigny-le-Bretonneux, France: McGraw-Hill, 2010.
UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2024. 2024.