Introdução
A crescente pressão por responsabilidade socioambiental tem conferido aos relatórios ESG (ambientais, sociais e de governança) um papel central na prestação de contas e na formulação estratégica das organizações. Contudo, no setor cultural e na economia criativa – caracterizados pela convivência entre inovação, impacto social e identidade artística – sua incorporação aos processos de gestão enfrenta desafios conceituais e operacionais.
Apesar da valorização crescente da agenda ESG, de acordo com a literatura recente, sua aplicação em organizações culturais ainda apresenta limitações.
Problema de Pesquisa e Objetivo
A demanda social por maior transparência e comprometimento socioambiental exige estratégias que assegurem integridade e decisões alinhadas aos stakeholders. Nessa lógica, estudos apontam a controladoria como suporte à confiabilidade e à padronização das informações e dos relatórios integrados como instrumentos de melhoria de desempenho sustentável (Sun, 2024).
Este artigo busca responder à questão: quais evidências emergem da análise de relatórios ESG em organizações da economia criativa? O artigo objetiva analisar a divulgação de práticas ESG em organizações da economia criativa.
Fundamentação Teórica
Dharmani et al. (2021), Landoni et al. (2020), Sica et al. (2025) e Trevisan e Mouritsen (2023) evidenciam as principais tensões que marcam o campo, as singularidades das organizações criativas e os caminhos indicados pela literatura para avançar na incorporação de práticas ESG mais coerentes com a realidade cultural. Assim, evidencia-se que o desafio não está em impor métricas rígidas, mas em construir instrumentos de monitoramento e governança capazes de dialogar com a fluidez, a subjetividade e a complexidade simbólica que caracterizam a economia criativa.
Metodologia
A pesquisa descritiva adota uma abordagem qualitativa com o objetivo de a divulgação de práticas ESG em organizações da economia criativa.
Foram selecionadas intencionalmente três organizações brasileiras reconhecidas por sua relevância na economia criativa e pela atuação em diferentes frentes do setor cultural: o Instituto Cultural Vale, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) e o Grupo Globo.
A coleta de dados foi realizada por meio de análise documental dos relatórios de sustentabilidade e ESG disponibilizados pelas três organizações dos anos de 2022 e 2023.
Análise e Discussão dos Resultados
Os resultados indicam alguns contrastes: o Instituto Cultural Vale privilegia narrativas qualitativas e impactos simbólicos, o ECAD apresenta fragilidades pela ausência de métricas consistentes, o que confirma os limites da inovação em ambientes regulatórios frágeis, e o Grupo Globo se destaca pelo modelo mais consolidado, com relatórios padronizados e integrados às decisões estratégicas. Esses achados reforçam a necessidade de sensibilidade territorial nos mecanismos de controle e a importância de padrões internacionais de reporte como instrumentos de accountability.
Considerações Finais
A análise indicou diferentes estágios de maturidade na adoção e estruturação de práticas de sustentabilidade, bem como lacunas e potenciais de atuação da controladoria nesse campo.
A incorporação dos relatórios ESG aos processos decisórios ainda é limitada, marcada por disclosure seletivo, baixa padronização de indicadores e fragilidades na conexão entre compromissos assumidos e o que é efetivamente reportado. Notou-se um modelo qualitativo e territorial no Instituto Cultural Vale, um estágio inicial no ECAD e um modelo consolidado no Grupo Globo, com indicadores e alinhamento estratégico.
Referências
DHARMANI, P.; DAS, S.; PRASHAR, S. A bibliometric analysis of creative industries: current trends and future directions. Journal of Business Research, v. 135, p. 252-267, 2021.
SICA, G. et al. Leveraging on cultural and creative industries to foster social innovation: a bibliometric analysis. Journal of Innovation & Knowledge, v. 10, n. 1, p. 100649, 2025.
TREVISAN, P.; MOURITSEN, J. Compromises and compromising: management accounting and decision-making in a creative organisation. Management Accounting Research, v. 60, p. 100839, 2023.