Introdução
A Transição Energética Justa (TEJ) propõe retificar desigualdades históricas, mas enfrenta barreiras sociais complexas. Nesse contexto, a comunidade LGBTQIAPN+ é largamente invisibilizada nas políticas do setor, revelando uma lacuna entre o discurso e a prática da justiça. A exclusão não é incidental, mas um sintoma de estruturas de poder arraigadas em um setor tradicionalmente homogêneo. O estudo adota o estruturalismo para desvelar as "regras gramaticais" que governam a distribuição desigual de poder e oportunidades na transição energética.
Problema de Pesquisa e Objetivo
A tensão entre a exclusão estrutural da comunidade LGBTQIAPN+ e o potencial catalisador da inclusão no setor energético levanta a questão central: De que maneira a exclusão da comunidade LGBTQIAPN+ se manifesta no discurso e nas metas estratégicas de grandes empresas do setor energético brasileiro e no planejamento estatal? Para responder, o objetivo deste artigo é analisar como essa exclusão se manifesta no discurso e nas metas estratégicas de grandes empresas do setor, em contraste com o silêncio do planejamento governamental.
Fundamentação Teórica
O estudo se baseia na teoria da Transição Energética Justa (TEJ), que exige a inclusão de grupos marginalizados. Utiliza o estruturalismo como lente para analisar o setor energético como um sistema social com estruturas de poder profundas que perpetuam a exclusão. O artigo propõe o conceito de "inclusão seletiva", mecanismo pelo qual organizações assimilam pautas de gênero e raça como "capital estratégico" (com metas), enquanto a agenda LGBTQIAPN+ é mantida no "campo do discurso ético" (sem metas de poder), preservando o status quo.
Metodologia
A pesquisa, de abordagem qualitativa, utiliza a análise documental para examinar o discurso e as práticas de inclusão no setor energético brasileiro. O corpus, selecionado por máxima variação, inclui documentos (políticas de D&I, códigos de conduta, relatórios de sustentabilidade) de quatro empresas líderes (Petrobras, Eletrobras, Raízen e Neoenergia) e o Plano Nacional de Energia (PNE) 2050. Aplicou-se a análise de conteúdo qualitativa, focando em: (a) presença/ausência de menções à comunidade; (b) qualidade (discurso vs. metas); (c) contexto das menções.
Análise e Discussão dos Resultados
Os resultados mostram uma convergência no discurso corporativo, que evoluiu para uma postura proativa de inclusão, mencionando explicitamente "orientação sexual" e "identidade de gênero". Contudo, há uma lacuna estrutural: as empresas estabelecem metas ambiciosas de representatividade na liderança para mulheres e pessoas negras, mas omitem sistematicamente metas para pessoas LGBTQIAPN+. O planejamento estatal (PNE 2050) reforça essa estrutura com um "silêncio absoluto" sobre a pauta, mantendo uma visão puramente tecnocrática.
Considerações Finais
O estudo demonstrou uma forte dissonância entre o discurso inclusivo e a materialidade das ações no setor energético brasileiro. A principal contribuição teórica é a conceituação do mecanismo de "inclusão seletiva", onde pautas de diversidade são hierarquizadas, mantendo a agenda LGBTQIAPN+ em um campo simbólico, sem acesso a posições de poder. Recomenda-se que as empresas estabeleçam metas quantitativas para a liderança LGBTQIAPN+ e que o Estado incorpore a equidade identitária em seu planejamento energético.
Referências
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