Introdução
O avanço da transição energética recolocou Poços de Caldas no centro do interesse minerário, reposicionando o Morro do Ferro como jazida estratégica para suprir parte significativa da demanda global de terras raras. Mais do que um debate técnico sobre suprimento de insumos, a mineração no município reabre dilemas históricos e levanta questões sobre autonomia, desenvolvimento local e justiça socioambiental, ao mesmo tempo em que mobiliza narrativas de sustentabilidade e inovação que legitimam o avanço extrativista.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Nosso estudo parte da pergunta: de que forma os discursos empresariais, estatais e sociais constroem e legitimam a exploração de terras raras em Poços de Caldas? O objetivo central é analisar as narrativas que disputam os sentidos da mineração, investigando como são articuladas promessas de inovação, desenvolvimento e sustentabilidade, e como emergem resistências que questionam a justiça socioambiental e a repartição dos benefícios.
Fundamentação Teórica
Dialogamos com a Ecologia Política e os Estudos Organizacionais críticos para compreender os conflitos como arenas onde se confrontam racionalidades distintas sobre o uso do território. Autores como Gudynas (2009, 2012) e Svampa (2013, 2019) fundamentam nossa análise sobre extrativismo e neoextrativismo, evidenciando a persistência de lógicas de dependência e expropriação, mesmo sob discursos de inclusão e sustentabilidade. Também nos apoiamos no conceito de financeirização da natureza (Brand; Wissen, 2013), que problematiza a transformação de recursos comuns em ativos estratégicos nos circuit
Metodologia
O corpus foi composto por matérias jornalísticas, comunicados oficiais e reportagens institucionais publicadas entre 2024 e 2025. Sistematizamos essas fontes em planilha eletrônica e aplicamos a Metodologia Gioia, que permite construir categorias conceituais a partir de narrativas empíricas. Seguimos o percurso de primeira ordem (enunciados), segunda ordem (categorias) e dimensões agregadas, garantindo rigor, rastreabilidade e consistência teórica na análise.
Análise e Discussão dos Resultados
Identificamos três dimensões principais: (1) economia da transição energética, que apresenta Poços de Caldas como polo de inovação e dinamização econômica; (2) riscos e conflitos ambientais, que evidenciam tensões sobre autonomia territorial, impactos à saúde e injustiça ambiental; e (3) narrativas de sustentabilidade corporativas e políticas, que buscam legitimar a expansão da mineração por meio de repertórios de “mineração responsável” e parcerias institucionais. Os resultados indicam que tais narrativas produzem consensos e reduzem os espaços de contestação, reproduzindo a lógica extrativis
Considerações Finais
Concluímos que a exploração de terras raras em Poços de Caldas revela o dilema entre reforçar modelos extrativistas ou construir alternativas baseadas em justiça socioambiental e distribuição equitativa de benefícios. Argumentamos que o discurso da sustentabilidade funciona como estratégia de legitimação, neutralizando resistências e acelerando projetos sem o devido controle social. Recomendamos estudos futuros com etnografia e comparações entre outros territórios minerários, aprofundando a compreensão sobre governança, resistência e financeirização da transição energética.
Referências
Autores como Gudynas (2009, 2012), Svampa (2013, 2019), Aráoz (2015), Brand & Wissen (2013), Zhouri & Laschefski (2010), entre outros.