Introdução
Este artigo propõe a sustentabilidade como matriz epistemológica crítica e estratégica no campo do turismo, superando leituras tecnocráticas e reducionistas que limitam seu potencial transformador. A partir de revisão crítica da literatura e das epistemologias do Sul, articula ética, política, territorialidade e epistemologia, mediadas por inovação, criatividade e governança. A matriz é apresentada como referencial reflexivo, situado e dinâmico, capaz de orientar estratégias sustentáveis plurais, descolonizadoras e alinhadas à justiça cognitiva e ao desenvolvimento territorial sustentável.
Problema de Pesquisa e Objetivo
O turismo, embora relevante globalmente, carece de uma teoria coesa que articule suas múltiplas dimensões. A sustentabilidade, amplamente mobilizada, tem sido aplicada de forma tecnocrática, reduzindo seu alcance ético, político e territorial. O problema que orienta este estudo é se é possível conceber a sustentabilidade como matriz epistemológica crítica no campo do turismo. O objetivo é propor uma matriz integradora que articule ética, política, territorialidade e epistemologia, mediadas por inovação, criatividade e governança.
Fundamentação Teórica
A fundamentação parte das disputas epistemológicas do turismo, da “indisciplina” (Tribe) à “pandisciplinaridade” (Weaver), e das limitações de modelos sistêmicos e funcionalistas (Jafari, Beni, Leiper). Incorpora críticas contemporâneas à sustentabilidade, que questionam usos tecnocráticos e neoliberais (Higgins-Desbiolles, Fletcher, Gössling), e referencia as epistemologias do Sul (Santos, Leff, Escobar), que propõem justiça cognitiva e pluralidade de saberes. originando uma matriz estratégica e situada, voltada à transição ética, ao valor sustentável e ao fortalecimento territorial.
Metodologia
Adotou-se abordagem qualitativa, teórico-interpretativa e crítica, de caráter exploratório, para compreender disputas conceituais do turismo e da sustentabilidade. O percurso metodológico foi representado pelo Duplo Diamante adaptado, com ciclos de abertura e síntese reflexiva. Realizou-se revisão crítica assistemática da literatura (Hart, 1998), orientada por epistemologias do Sul, justiça cognitiva e crítica à racionalidade técnico-instrumental. O corpus foi construído em bases nacionais e internacionais, com análise interpretativa, categorização temática e triangulação teórica.
Análise e Discussão dos Resultados
A proposta de matriz epistemológica crítica reposiciona a sustentabilidade além de leituras tecnocráticas, aproximando-a de uma perspectiva ética, territorial, política e cognitiva. No turismo, orienta práticas situadas e plurais; em sentido mais amplo, reafirma justiça cognitiva, diálogo de saberes e governança participativa como fundamentos para enfrentar crises socioambientais globais. Oferece, assim, um referencial crítico, situado e dinâmico para integrar diversidade epistêmica e promover transformações coletivas.
Considerações Finais
O estudo propõe a sustentabilidade como matriz epistemológica crítica no turismo, articulando fundamentos teóricos e dimensões práticas. Longe de prescrever uma teoria única, a matriz constitui um referencial aberto, capaz de integrar saberes situados, enfrentar desigualdades socioambientais e questionar colonialidades do saber. Orientada pela justiça cognitiva e pela ética do cuidado, reforça o turismo como campo plural e relacional. Mais que modelo normativo, é convite à reconstrução epistemológica do campo, valorizando diversidade e transformação.
Referências
Bianchi, R. (2022). Political economy and tourism sustainability. Tourism Geographies.
Escobar, A. (2015). Territories of difference. Duke University Press.
Fletcher, R. (2016). Sustainable tourism and neoliberalism. Tourism Geographies.
Higgins-Desbiolles, F. (2022). Sustaining tourism? Journal of Sustainable Tourism.
Leff, E. (2014). Saber ambiental. Cortez.
Panosso Netto, A. (2011). Epistemologia do turismo. Aleph.
Santos, B. S. (2007). Conhecimento prudente para uma vida decente. Cortez.
Tribe, J. (1997). The indiscipline of tourism. Annals of Tourism Research.