Introdução
O retorno da servidora pública ao lar, apresentado pelo Programa de Gestão e Desempenho (PGD), revela-se menos como avanço e mais como reedição da lógica patriarcal que funde casa e repartição. Sob a promessa de autonomia prevista no Decreto nº 11.072/2022 (Brasil, 2022; 2023a; 2023b), instala-se a metrificação das entregas, ignorando que metas não apagam panelas, filhos e idosos. Estudos apontam a sobrecarga e a reatualização da divisão sexual do trabalho (Hirata, 2016; Guimarães; Vieira, 2020; Teixeira; Bacinello, 2024; Silva; Veloso, 2025).
Fundamentação e Discussão
O PGD, instituído pelo Decreto nº 11.072/2022 e normativas posteriores (Brasil, 2022; 2023a; 2023b), desloca o controle presencial para a lógica de métricas e entregas, exaltando eficiência e autonomia (Teixeira; Bacinello, 2024; Silva; Veloso, 2025). Contudo, críticas revelam que o teletrabalho intensifica a sobrecarga feminina, naturaliza jornadas múltiplas e reforça a divisão sexual do trabalho (Hirata, 2016; Ribeiro, 2019; Guimarães; Vieira, 2020). O lar torna-se espaço de exploração invisível, onde a promessa de flexibilidade oculta desigualdades de gênero, classe e raça.
Conclusão
O PGD, vendido como modernização, ressignifica o lar como espaço de controle e sobrecarga. A prometida flexibilidade revela-se precarização, ao somar metas e relatórios às tarefas invisíveis do cuidado, perpetuando a divisão sexual do trabalho (Silva, 2019; Pimenta; Lopes, 2014). Pesquisas indicam que mães seguem como principais responsáveis, com impactos sobre saúde e qualidade de vida (Deus; Schmitz; Vieira, 2021). Assim, o teletrabalho institucionalizado não emancipa: apenas refina o patriarcado e converte o lar em prisão produtiva.
Referências
BARROS, Alice Monteiro de. A mulher e o Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, 1995.
DEUS, Meiridiane Domingues de; SCHMITZ, Mariana Effting de Sousa; VIEIRA, Mauro Luís. Família, gênero e jornada de trabalho: uma revisão sistemática de literatura. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, v. 14, n. 1, e15805, 2021. https://doi.org/10.36298/gerais202114e15805
HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, 2007.