Introdução
Desde rituais ancestrais como a "dança da chuva" (ALENCAR, 1865), a intervenção no clima reaparece em formas tecnológicas: semeadura de nuvens e geoengenharia. Injeta-se núcleos de condensação (iodeto de prata, gelo seco, higroscópicos) para induzir precipitação, com aplicações em reservatórios, neve e supressão de granizo. A eficácia é controversa (sinal/ruído, escala, replicabilidade) e há desafios de justiça hídrica e governança. Esta revisão sintetiza evidências recentes, avalia metodologias e compara agentes nucleantes.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Problema de pesquisa: a eficácia da semeadura de nuvens é incerta devido à variabilidade natural, limitações de escala, baixa replicabilidade e heterogeneidade metodológica, além da ausência de comparações sistemáticas entre agentes nucleantes e da integração deficitária das dimensões socioambientais e regulatórias, o que impede recomendações de política pública. Objetivo: realizar revisão sistemática que sintetize evidências empíricas e de modelagem (últimos cinco anos), avalie metodologias e compare resultados por agente nucleante e contexto climático.
Fundamentação Teórica
O controle hídrico desloca-se do plano ritualístico para as relações de poder do ciclo hidrossocial (Tanika et al., 2023). Nesse contexto, a semeadura de nuvens emerge como intervenção humana para induzir chuva (Gomes & Reis, 2021), com Estados, corporações e universidades protagonizando avanços para gerir recursos atmosféricos. No entanto, tais esforços negligenciam dimensões socioambientais e regulatórias cruciais (Corry & Kornbech, 2021), tornando a implementação controversa e demandando rigorosa avaliação de eficácia, riscos e impactos distributivos (Herman & Sovacool, 2024).
Metodologia
Revisão sistemática seguindo o protocolo de Costa, Fontanelle e Zoltowski e checklist PRISMA. Busca no Portal CAPES (pt/en: cloud seeding, cloud condensation, seeding, semeadura de nuvens, geoengineering) em título, resumo e palavras-chave; incluídos só artigos peer-reviewed em pt, en e es Recuperados 184 registros; 119 incluídos após triagem. Seleção e extração independentes em duplicata, discordâncias resolvidas por consenso. Qualidade adaptada; síntese narrativa por heterogeneidade. Limitações: única base e exclusão da literatura cinzenta, atenuadas por dupla extração e estratificação.
Análise e Discussão dos Resultados
Dos 119 estudos, predominam modelagens acopladas a operações experimentais; ensaios longos e randomizados são raros, limitando atribuições causais. O iodeto de prata é o agente mais usado; higroscópicos e gelo seco aparecem em casos controlados. Relatos indicam incrementos locais de chuva em condições favoráveis, mas magnitude e replicabilidade variam por região e regime atmosférico. Agendas (China, EUA, EAU, Índia) divergem. Eficácia é condicional: promissora, porém incerta. Recomenda-se séries mais longas, observação in situ, protocolos mais rigorosos e integração socioambiental e governos.
Considerações Finais
Revisão mostra que semeadura de nuvens é empregada para aumentar precipitação, incrementar neve em bacias, atenuar granizo e reduzir nevoeiros; sua eficácia depende de janelas meteorológicas e parâmetros microfísicos. Estudos combinam modelagem (WRF, LES) e observações (radares, ceilômetros, pluviômetros), mas a heterogeneidade metodológica limita generalizações. Faltam ensaios longos, integração modelagem-observação, comparações diretas entre agentes e avaliação de externalidades. Recomenda-se protocolos padronizados, monitoramento e governança transparente e maior participação pública local.
Referências
COSTA, A. B.;et al .Como escrever um artigo de revisão sistemática. [s.n.], 2020
CORRY, O.;KORNBECH, N. Geoengineering: a new arena of international politics. In: CHANDLER, D. et al.(ed.).International Relations in the Anthropocene. 2021
HERMAN, K. S.; SOVACOOL, B. K. Applying the multi-level perspective to climate geoengineering. Energy Research & Social Science, v. 115, 2024
GOMES, M. F.; REIS, E. S. Indução de chuvas: desregulação e conflitos de interesse. PIXELS, v. 3, n. 1, Jun. 2021
TANIKA, L. et al. Who or what makes rainfall? Relational and instrumental paradigms.COES.V. 63, 2023