Introdução
As mudanças climáticas intensificam vulnerabilidades em comunidades tradicionais que dependem do território e dos recursos naturais. No Brasil, quilombolas enfrentam impactos que vão além do econômico, afetando identidade cultural, espiritualidade e coesão social. Os ODS da ONU (2015), especialmente a meta 13.b, destacam a necessidade de fortalecer grupos marginalizados. Nesse contexto, compreender como os capitais comunitários contribuem para a resiliência é essencial. O Quilombo Brasa Moura (Piratini/RS), certificado em 2017, exemplifica esse desafio e orienta a presente pesquisa.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Como as mudanças socioambientais têm impactado a produção de alimentos em comunidades tradicionais como o quilombo Brasa Moura em Piratini/RS e como os residentes percebem essas alterações e se adaptam/mitigam os impactos? O objetivo deste estudo é analisar como os capitais comunitários e os saberes tradicionais contribuem para a organização socioprodutiva, a resiliência socioambiental e o fortalecimento da autonomia da comunidade quilombola.
Fundamentação Teórica
O Community Capitals Framework (EMERY; FLORA, 2006; FLORA, 2016), que compreende sete capitais interdependentes para o desenvolvimento comunitário. O cultural envolve valores e tradições; o humano, capacidades e saberes; o social, redes de confiança; o físico, infraestrutura; o político, articulação e direitos; o financeiro, recursos monetários; e o natural, solo, água e biodiversidade (IPCC, 2022). No Brasil, políticas públicas como o PBQ (2004), a PNGTAQ, o Programa Aquilomba Brasil, o PAFE e o projeto Naturezas Quilombolas buscam garantir seus direitos.
Metodologia
A pesquisa utilizou estudo de caso no quilombo, com observações, documentos e 11 entrevistas semiestruturadas, gravadas, transcritas e anonimizadas, conforme normas éticas. Os participantes foram selecionados pela técnica bola de neve, incluindo especialistas e residentes. As entrevistas abordaram subsistência e percepção das mudanças socioambientais. A análise seguiu a técnica de conteúdo direcionada, via NVIVO15, permitindo identificar padrões e contradições nos capitais comunitários.
Análise e Discussão dos Resultados
A articulação entre os capitais demonstra que a resiliência comunitária não se resume a respostas técnicas, mas se expressa em processos culturais e coletivos que ressignificam práticas ancestrais frente às pressões externas. Nesse sentido, a pesquisa evidencia que a produção de alimentos constitui não apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também uma prática política e cultural de resistência. Os resultados indicam que a resiliência não pode ser entendida como mera resistência passiva, mas como processo ativo de articulação entre saberes tradicionais, redes sociais e disputas políticas.
Considerações Finais
Políticas públicas intersetoriais e culturalmente sensíveis são urgentes, devendo assegurar a posse da terra, fomentar a agroecologia, valorizar os saberes tradicionais e promover a participação ativa das comunidades na formulação de estratégias de adaptação. O papel das mulheres, identificado como central nas práticas de resistência e cuidado, reforça a importância de considerar dimensões de gênero na análise da resiliência comunitária. A valorização dos capitais comunitários não se limita à preservação cultural, mas constitui estratégia vital para enfrentar os desafios socioambientais.
Referências
EMERY, M.; FLORA, C. Spiraling-Up: Mapping Community Transformation with Community Capitals Framework. Community Development, v. 37, n. 1, p. 19-35, 2006.
FLORA, C. B. Rural Communities: Legacy + Change. Routledge. 5. ed. New York. 2016. https://doi.org/10.4324/9780429494697
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Summary for Policymakers. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate
Change. Cambridge University Press, Cambridge, UK and New York, NY, p. 3–33. 2022.