Introdução
As mudanças climáticas intensificam eventos extremos, como a tragédia de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. A devastação causada pelas enchentes no Rio Grande do Sul transcendeu a tragédia humanitária, expondo a severa fragilidade das cadeias de suprimento. Neste cenário de colapso, este estudo desafia a visão tradicional da mídia como um mero espectador ou 'não-stakeholder'. O objetivo é analisar sua influência real, como parte interessada com poder e urgência, na resposta e na governança de empresas e governos diante da crise climática, a partir do caso gaúcho.
Problema de Pesquisa e Objetivo
A literatura sobre cadeias de suprimentos foca em atores internos, explorando pouco a influência de stakeholders externos. Desse modo, a mídia é muitas vezes considerada um “não-stakeholder”. Porém, atua como um ator relevante, com narrativas que pressionam empresas e governos. A questão de pesquisa levantada é: Como a cobertura midiática das enchentes de 2024 influenciou as cadeias de suprimento do Rio Grande do Sul? Para respondê-la, o objetivo é analisar o papel e a influência da mídia como stakeholder, a partir da análise de conteúdo de 299 reportagens.
Fundamentação Teórica
A seção aborda a gestão da sustentabilidade em cadeias de suprimento (SSCM) com base no Triple Bottom Line (TBL) de Elkington. Define stakeholders (Freeman, 2004) como partes que influenciam ou são influenciadas pela cadeia. Utiliza a tipologia de Mitchell et al. (1997), que classifica stakeholders por poder, urgência e legitimidade, e aponta que a mídia, embora comumente vista como ‘não-stakeholder’, é um ator em potencial. A teoria contextualiza os efeitos das mudanças climáticas.
Metodologia
De abordagem qualitativa, este estudo emprega o método de estudo de caso sobre o desastre climático de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. O levantamento da análise é composto por 299 matérias jornalísticas online, de veículos de comunicação nacionais e regionais, publicadas entre 02/05/2024 e 25/01/2025 e selecionadas por palavras-chave como "enchentes" e "cadeias de suprimentento". O tratamento dos dados seguiu a análise temática de conteúdo (Bardin, 2011), categorizando o material para mapear os principais eixos narrativos da cobertura sobre os impactos nas cadeias produtivas.
Análise e Discussão dos Resultados
Inicialmente focada na emergência, a cobertura midiática evoluiu para “tragédia anunciada”, citando alertas do Cemaden e investigando a negligência governamental e o desmonte ambiental como causas potencializadoras. A análise contrastou a vulnerabilidade de micro e pequenas empresas (85% sem seguro) com o foco dado em grandes corporações, cujas doações foram divulgadas, mas consideradas insuficientes. A mídia agiu como stakeholder, cobrando uma nova cultura de prevenção na cadeia produtiva e maior responsabilidade socioambiental de todos os seus elos, do poder público às grandes corporações.
Considerações Finais
Esta pesquisa evidenciou a importância da mídia como stakeholder nas enchentes de 2024 no RS. Ao construir a narrativa de “tragédia anunciada”, a imprensa expôs a negligência governamental e a fragilidade de pequenas empresas, pressionando grandes corporações por maior responsabilidade socioambiental para além das leis vigentes. O estudo contribui para o debate sobre o tema e sugere, como agenda futura, a investigação junto a gestores para compreender o uso prático da cobertura midiática na reestruturação das cadeias de suprimentos e no acesso a crédito.
Referências
Bardin, L. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
Freeman, R.E. Strategic management: a stakeholder approach. Boston: Pitman, 2004.
Searcy, C. Multi-stakeholder initiatives in sustainable supply chains: Putting sustainability performance in context. Elementa Science of the Anthropocene, Vol.5, Art.3, 2017.
Seuring, S.; Müller, M. From a literature review to a conceptual framework for sustainable supply chain management. Journal of Cleaner Production, V. 16, p.1699-1710, 2008.