Resumo

Título do Artigo

Quando os Caramujos Falam: agência não-humana e a prática situada da inovação social rural em um coletivo amazônico
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Tema

Estudos da Amazônia

Autores

Nome
1 - Diêgo Alexandre Duarte
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia - IFRO - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Responsável pela submissão
2 - Angelina Maria de Oliveira Licorio
Instituto Federal de Educação Ciências e Tecnologia de Rondônia - IFRO - Universidade Municipal de São Caetano do Sul
3 - Raquel da Silva Pereira
Universidade Municipal de São Caetano do Sul - USCS - Programa de Pós-graduação em Administração / USCS
4 - Marcos Aurélio Borchardt
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Reumo

Introdução
Em um cenário de caos global, respostas locais e adaptativas emergem como fontes de inovação para a sustentabilidade. Esta pesquisa investiga uma dessas respostas, um coletivo de mulheres agricultoras na Amazônia que, a partir de suas práticas cotidianas, desenvolveram um arranjo produtivo local sustentável. A produção agroecológica de pimentas, inicialmente uma atividade complementar, tornou-se um vetor de resiliência e transformação social, desafiando a lógica de modelos de desenvolvimento impostos externamente.
Problema de Pesquisa e Objetivo
O problema de pesquisa é: como a inovação sustentável emerge de práticas situadas em resposta a desafios socioambientais inesperados? O objetivo é analisar, sob a ótica da agência não-humana e da ação situada, como um coletivo de mulheres na Amazônia cocriou soluções agroecológicas inovadoras. Investigamos como a interação com elementos não-humanos, como pragas e plantas, catalisou a emergência de um novo saber-fazer e de uma nova organização social.
Fundamentação Teórica
O trabalho se ancora na teoria da Ação Situada (Suchman, 2007), que postula que a ação emerge da interação com as circunstâncias locais, e não de planos prévios. Esta lente é expandida pela Teoria Ator-Rede (Latour, 2012; Callon, 1986), que reconhece a agência de elementos não-humanos (pragas, plantas, natureza) na configuração da ação. Dialoga-se também com o conceito de Inovação Social Rural (Muñoz e Muñoz, 2018), entendida como novas soluções que respondem a necessidades sociais de forma mais eficaz que as soluções existentes.
Metodologia
Realizou-se um estudo de caso etnográfico em um coletivo de 14 mulheres na comunidade Pedra de Santana, em Rondônia. A coleta de dados ocorreu por meio de observação participante, notas de campo e entrevistas informais durante outubro de 2022. A análise, de natureza qualitativa e indutiva, buscou compreender como os agenciamentos entre atores humanos e não-humanos moldaram as práticas de cultivo e a organização coletiva, seguindo uma abordagem inspirada na sociologia pragmatista.
Análise e Discussão dos Resultados
A análise revela que a infestação de caramujos-africanos (agente não-humano) desestabilizou as práticas de cultivo, exigindo uma resposta inovadora. Por meio da observação e experimentação situada, as mulheres descobriram que uma planta local, a "ampicilina", atuava como barreira natural, uma inovação social agroecológica. Essa e outras práticas (adubo de peixe, cerca viva) fortaleceram a ação coletiva, transformando a atividade em um empreendimento que gera renda e empoderamento feminino.
Considerações Finais
A inovação para a sustentabilidade não é apenas um processo humano, mas uma cocriação emergente da interação situada entre humanos e não-humanos. O caso demonstra que reconhecer a agência do ambiente é importante para compreender a integração de soluções resilientes, locais e de baixo custo. O trabalho contribui para a teoria da inovação social ao oferecer uma lente de análise que integra a prática situada e a agência distribuída como propulsores do desenvolvimento sustentável.
Referências
Callon, M. (1986). Éléments pour une sociologie de la traduction. L'Année Sociologique. Latour, B. (2012). Reagregando o social. Suchman, L. A. (2007). Human-machine reconfigurations: Plans and situated actions. Serva, M. (2023). Análise pragmatista de organizações. Revista de Administração de Empresas.