Introdução
O desenvolvimento no Brasil é um campo de disputas discursivas (Feindt & Oels, 2005). No governo Lula, a tensão entre crescimento e sustentabilidade se acirra, num contexto de reconstrução da governança ambiental pós-desmonte (Nader, 2022). Este trabalho analisa um enunciado presidencial sobre a morosidade do IBAMA, no qual a lentidão é atribuída à “falta de especialistas” e não à “má-fé”, constituindo um gesto de interpretação com profundos efeitos de sentido (Orlandi, 2009).
Problema de Pesquisa e Objetivo
Problema: Como o discurso presidencial sobre licenciamento ambiental opera na construção de sentidos sobre desenvolvimento regional, conciliando crescimento e sustentabilidade?
Objetivo: Analisar a discursividade da fala, investigando as interações entre linguagem, ideologia e poder.
Pressuposto: O discurso opera uma despolitização do debate, reduzindo um problema político estrutural a uma falha gerencial para legitimar um modelo de desenvolvimento que prioriza a economia.
Fundamentação Teórica
Ancorado na Análise de Discurso francesa (Pêcheux, 1990; Orlandi, 2009), o estudo mobiliza os conceitos de formação ideológica, interdiscurso e silenciamento. A análise considera a “sustentabilidade” como um conceito disputado (Santos et al., 2019). O interdiscurso é marcado pelo contexto de “desmonte” dos órgãos ambientais (Menezes & Barbosa, 2021), tornando o silenciamento sobre este fato um gesto político central.
Metodologia
Pesquisa qualitativa, documental, na forma de estudo de caso. O corpus é um enunciado do Presidente Lula sobre a morosidade do IBAMA.
A análise segue o dispositivo da AD em três etapas:
1) Descrição (marcas linguísticas);
2) Interpretação (relação com as condições de produção);
3) Compreensão (análise do funcionamento ideológico e dos efeitos de sentido produzidos), conforme detalhado no Quadro 1 do trabalho.
Análise e Discussão dos Resultados
Resultados indicam que o discurso articula três formações ideológicas: Desenvolvimentismo Inclusivo, Pragmatismo na Gestão e Sustentabilidade Conciliatória.
O principal efeito é a despolitização do debate, que opera pelo silenciamento do histórico de desmonte dos órgãos ambientais.
Ao ignorar o sucateamento programático, o discurso transforma um sintoma político estrutural em uma falha gerencial neutra, legitimando um projeto que prioriza o crescimento econômico (Milhorance, 2022).
Considerações Finais
Conclui-se que o funcionamento discursivo presidencial é um dispositivo estratégico de governança que administra contradições. A principal contribuição é desvelar o mecanismo de despolitização que, ao silenciar o desmonte ambiental, legitima um modelo de desenvolvimento que subordina a pauta ambiental. Limitação: foco em um enunciado. Sugestão: ampliar o corpus para analisar continuidades e rupturas na política ambiental brasileira.
Referências
ABERS, R. N. (2019). https://doi.org/10.1017/lap.2018.75
BRIDGE, G. et al. (2018). https://doi.org/10.1016/j.erss.2018.04.029
DEUTSCH, S. (2021). https://doi.org/10.2458/JPE.2994
FEINDT, P. H.; OELS, A. (2005). https://doi.org/10.1080/15239080500339638
LEIPOLD, S. (2019). https://doi.org/10.1080/1523908X.2019.1660462
MENEZES, R. G.; BARBOSA JR, R. (2021). https://doi.org/10.1007/s12286-021-00491-8
MILHORANCE, C. (2022). https://doi.org/10.1111/ropr.12502
NADER, H. (2022). https://doi.org/10.1126/science.adf9526
OKROŽNIK, D. et al. (2024). https://doi.org/10.1111/dpr.12801