Introdução
Inspirada nas discussões de Barbieri e Rodrigues (2008), Canclini (2011), Yúdice (2006) e SEMAS (2024), esta pesquisa parte da ideia de que a cultura não se limita a ocupar espaços, mas cria processos replicáveis que podem servir de referência para outros territórios, multiplicando vozes e criando, a cada edição, novas formas de existir. Nesse sentido, cabe analisar festivais culturais, como o Festival Barulhinho Delas (foco da pesquisa), visando conhecer como funciona a harmonia entre impacto cultural e responsabilidade social.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Lins e Kanaan (2012) afirmam que organizações comprometidas com práticas sustentáveis alcançam maior capacidade de resposta e relevância social. Diante desse cenário, este artigo busca responder à questão: como se dá a aplicação de práticas ASG (Ambientais, Sociais e de Governança) em festivais? Assim, o objetivo geral é analisar a aplicação destas práticas no contexto do Festival Barulhinho Delas.
Fundamentação Teórica
Tenório (2016), ao propor a gestão social como prática metodológica, reforça que esse modelo busca garantir que a finalidade de uma organização seja indissociável das necessidades do território. A partir dessa dinâmica, a governança, no campo cultural, passa a ser também um exercício de formação política e cidadã. Tricker (2019) indica que processos de governança mais sensíveis tendem a gerar maior confiança e engajamento de todas as partes, algo essencial em contextos onde recursos financeiros são limitados e os desafios são complexos.
Metodologia
A pesquisa utilizou abordagem qualitativa descritiva para investigar a aplicação de práticas ASG no contexto do Festival Barulhinho Delas, que em 2025 teve à sua 6ª edição. Os dados empíricos foram obtidos no mês de junho de 2025 por meio de documentos internos, relatórios e entrevista semiestruturada e observação.
A entrevista semiestruturada foi realizada com a idealizadora e diretora do Festival, Nádia Sousa, e seguiu um roteiro com perguntas formuladas com base nos estudos de Rodrigues (2023) e Dias (2024).
Análise e Discussão dos Resultados
No geral, a análise revelou que o festival cultural analisado entende memória como parte da sustentabilidade. Relatórios e registros são considerados ferramentas de continuidade. Nos documentos analisados há uma linha narrativa que preserva a experiência, para que ela inspire outras edições e outros coletivos. Como a gestora entrevistada afirma: “Memória também é infraestrutura, porque é ela que não deixa a gente se perder”. Essa prática, que a SEMAS (2024) associa a um legado simbólico, amplia o alcance do Festival e assegura que a experiência se torne referência para outros.
Considerações Finais
A análise da aplicação de práticas ASG no contexto do Festival Barulhinho Delas permitiu compreender que a sustentabilidade que nele se constrói não cabe nas métricas tradicionais. Observou-se uma experiência viva, tecida no compasso da escuta, na força dos vínculos e na recusa de qualquer forma de desumanização. Ao longo da entrevista e da análise documental, constatou-se que o Festival é um dispositivo metodológico de organização comunitária. Verificou-se a existência de coerência ética que sustenta cada decisão, da escolha de um artista à recusa de um patrocínio que comprometa valores.
Referências
DIAS, F. M. Identificação, análise e validação das variáveis ESG essenciais com a proposição de uma estrutura teórico-prática única. 142 f. Tese (Doutorado) - Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2024.
RODRIGUES, R. F. S. Estratégias sustentáveis para uma economia criativa responsável: um estudo sobre práticas ESG em grandes eventos no eixo São Paulo - Rio de Janeiro/Brasil. 164 f. Dissertação (Mestrado) - Escola Superior de Propaganda e Marketing, Rio de Janeiro, 2023.
SEMAS – Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade. Agenda ASG – Do conceito à prática. Belém: SEMAS, 2024.