Introdução
A Amazônia enfrenta crescentes pressões socioambientais, materializadas em desastres naturais cada vez mais severos. O Estado do Acre é um reflexo local dessa crise, vivenciando uma exposição paradoxal a extremos hídricos: de um lado, cheias devastadoras e, de outro, estiagens severas que intensificam incêndios florestais. Essa realidade impõe desafios significativos à capacidade de resposta do poder público e à resiliência da população, exigindo uma compreensão aprofundada da dinâmica desses eventos para a formulação de políticas públicas eficazes.
Problema de Pesquisa e Objetivo
A pesquisa partiu da seguinte questão: a análise dos padrões espaço-temporais dos desastres naturais no Acre revela uma intensificação e reconfiguração do perfil de risco na última década?. A hipótese central é que o estado transita de um padrão de ocorrências esporádicas para um regime de eventos extremos mais frequentes e intensos. O objetivo, portanto, foi analisar a dinâmica espaço-temporal desses desastres, com base nos dados compilados do Atlas Digital de Desastres no Brasil, para validar essa hipótese e gerar diagnósticos que subsidiem a tomada de decisão.
Fundamentação Teórica
A relação entre sociedade e natureza, quando submetida à lógica da exploração predatória do modo de produção capitalista, resulta na intensificação de eventos extremos que se manifestam como desastres socioambientais (Marx, 2002; Miguez; Di Gregorio; Veról, 2017 ). A natureza, nesse contexto, responde dialeticamente à ação humana. A Amazônia, como uma fronteira de exploração de recursos, materializa de forma aguda essa dinâmica, onde modelos de desenvolvimento frequentemente amplificam as vulnerabilidades sociais e ambientais do território, no qual o Estado do Acre está diretamente inserido.
Metodologia
Este estudo adotou uma abordagem quantitativa de caráter descritivo-analítico, combinando geoprocessamento e análise de séries temporais (Silva, 2025; Creswell; Creswell, 2021; Longley et al., 2013 ). Foram utilizados dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) de 1991 a 2024, abrangendo os 22 municípios do Acre. A base cartográfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) serviu de apoio para a espacialização dos dados. Todo o tratamento, análise e visualização das informações foram executados no ambiente de programação R, garantindo a transparência.
Análise e Discussão dos Resultados
Foi revelado que o risco no Acre é dominado por fenômenos climáticos. Desastres hidrológicos, como inundações, são o principal vetor de perdas econômicas, somando mais de R$ 449 milhões em prejuízos. Já os eventos climatológicos, como a seca, respondem pelo maior impacto social, afetando mais de 2 milhões de pessoas. A frequência dos desastres acelerou inequivocamente a partir de 2020. Espacialmente, Rio Branco concentra o maior número de ocorrências, mas outros municípios como Brasileia, com 16 eventos registrados. Todavia restou claro um problema de subnotificação em locais mais afastados.
Considerações Finais
O estudo confirmou a hipótese de que o Acre vivencia uma transição para um regime de desastres mais frequentes e intensos. O perfil de risco do estado é bimodal, com uma temporada de cheias no primeiro trimestre e um período de secas e incêndios entre agosto e outubro. A análise espacial consolidou Rio Branco como o epicentro dos danos, mas destacou a vulnerabilidade de outros eixos, como o Vale do Juruá. Os resultados indicam a necessidade de políticas de adaptação territorialmente diferenciadas, que considerem tanto as áreas de maior dano quanto as possíveis subnotificações em locais ermos.
Referências
CRESWELL, John W.; CRESWELL, J D. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 5. ed. Porto Alegre: Penso, 2021. E-book.
MIGUEZ, Marcelo Gomes; DI GREGORIO, Leandro Torres; VERÓL, Aline Pires. Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos. Rio de Janeiro: GEN LTC, 2017. E-book.
LONGLEY, Paul A. et al. Sistemas e Ciência da Informação Geográfica. Porto Alegre: AMGH, 2013. E-book.
SILVA, Rubicleis G. Introdução à Ciências de Dados: Uma Aplicação à Ciências Sociais Aplicadas. Rio Branco: Book-website.com, 2025.